06 dezembro 2010

Apátrida :. Ana Paula Bergamasco

APÁTRIDA
ANA PAULA BERGAMASCO
Todas as Falas

Recebi esse livro autografado para resenha da autora Ana Paula Bergamasco, nossa nova parceria, e, ao concluir a leitura, só posso dizer que a história de Irena emocionou-me profundamente desde o princípio, com uma narrativa extremamente sutil transcorrendo entre o passado e o presente fluindo de forma clara e cristalina, pungente e, ao mesmo tempo, extravasando sentimentos e emoções à flor da pele.

Já li diversos livros com temas densos como "O Caçador de Pipas", de Khaled Hosseini e outros com a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto como pano de fundo, entre eles: "A Escolha de Sofia", de William Styron; "O Diário de Anne Frank"; "O Menino do Pijama Listrado", de John Boyne; "A Menina que Roubava Livros", de Markus Zusak; mas nenhum deles me preparou para o que eu veria através de uma leitura que foi tão tocante e envolvente, apesar de relatar os horrores desse episódio que foi um estigma na História Mundial, mas que também mostrou um lado humano, de extrema sensibilidade, através da história dos amigos e familiares da sobrevivente Irena, e de diversas pessoas que cruzaram o seu caminho no decorrer da narrativa. Além disso, é um grito de alerta, para que um período como esse jamais se repita na História, como segue abaixo nas palavras do próprio editor:

(...), se nos descuidarmos, repetimos o ciclo de ódio, sem nos apercebermos do erro dos nossos atos.

- No mais, temos que conservar acesas as luzes sobre o passado, para que ele não se repita, por mais dura que seja esta recordação. (...) Mantermos em memória eterna aqueles que foram ceifados, como um holocausto vivo. Esta é a história da minha autobiografia: seres humanos maravilhosos, em suas múltiplas facetas, arrancados do palco da vida, em pleno espetáculo...

Essa é a história de duas famílias distintas, cujos caminhos se entrelaçam, onde surge uma paixão em meio à guerra, que ceifou muitas vidas, mudando vários destinos.

Nascida na Polônia, Irena viveu uma infância relativamente feliz e humilde ao lado dos pais e dos oito irmãos em um vilarejo, nas redondezas de um bosque, onde adorava brincar correndo e empoleirando-se nas árvores, porque era uma menina cheia de vida, turbulenta, voluntariosa e, às vezes, arrogante, cercada de sonhos e esperanças. Seus pais eram agricultores e realizavam pequenos consertos e trabalhos manuais, mas todos ajudavam nas tarefas diárias. Apesar de sofrerem privações, eram muito unidos.

Irena encontrou na primavera de sua vida um grande amor e amigo, que permearia a sua existência: Jacob, o menino judeu, que era filho do Dr. Yossef, o médico da região, que no passado fora um grande amigo do pai dela. Mas, por circunstâncias do destino, essa amizade foi rompida, por motivos que desconhecemos e que só no final é revelado. Garanto a vocês que é surpreendente, mas que, no decorrer da leitura, sempre suspeitei de algo, só que não irei dizer o que é, senão perde a graça. (risos). No final, minhas suspeitas estavam certas... só errei a pessoa! (risos).

Um dia, por ironias do destino, os caminhos das duas famílias acabam se cruzando novamente e com isso a amizade entre Irena e Jacob acaba estreitando os laços familiares por toda a vida. Os dois crescem sob a turbulência política e com inúmeras responsabilidades familiares, mas acabam apaixonando-se.

Amar alguém é vê-lo como Deus o concebeu. (...) e foi desta forma que aprendi a amar o homem que permeou a minha vida.

Eu não sei explicar o início desse sublime sentimento. (...) Amei Jacob pura e profundamente e sei que ele nutriu o mesmo afeto por mim.

A sua ausência causava-me tristeza e angústia. Era quase uma dor física. (...) A sua presença mudava o meu universo. Ríamos e conversávamos. (...)

Pág. 33

Essa paixão acaba desmoronando a vida de Irena, porque Jacob é terminantemente proibido de casar-se com ela devido ao choque cultural e a tradição familiar no qual foi criado. Ao descobrir, Irena fica arrasada e cai doente, quando Jacob consuma seu casamento com Ewa, uma linda jovem judia de Varsóvia, abastada e elegante, que sua família aprovava. Com o apoio e o carinho da família, Irena tenta recuperar-se e conhece Rurik, um rapaz admirável, de boa índole, altruísta e generoso, com quem acaba casando-se e indo viver na Bielorússia.

- Qual o seu conceito de justo, Irena? O que pode é bom para você, pode não ser para o outro e o que é justo para o próximo pode não sê-lo para você. (...) a justiça é dar a cada um o que é seu a cada minuto. (...) o que nos sobra, (...), são as virtudes, e a nossa capacidade de poder discernir e de fazer, a cada dia, a nossa escolha... (...), crescermos com ela, (...), e aprendermos com ela, (...). Nada pode ser desprezado. A capacidade do homem reside em seu aprendizado no certo e no errado das coisas. A evolução só se dá com a melhora do ser humano, no sentido mais sublime da palavra.

Pág. 64

Mal sabia ela a enorme tragédia que iria assolar a sua vida, de seus familiares e amigos, além de milhares de pessoas, onde a guerra, a religião e as conturbações sociais mudariam seu destino e a empurrariam em uma avalanche de acontecimentos que a transformariam de menina simples e ingênua em uma mulher de fibra, coragem, perspicácia, lutadora e, acima de tudo, uma sobrevivente, que sofreu todos as perdas e dores, vivenciou os piores sofrimentos que um ser humano pode suportar e abdicou de seus desejos sacrificando todas as suas vontades em prol daqueles que amava!

(...) Ainda que me levassem tudo, eu continuaria um ser humano a ser respeitado e amado. (...) Todavia, não extraíram de mim as minhas origens. Eu sempre seria Irena, nascida em Lublin, numa família polonesa e feliz, (...), cheia de sonhos. E não eram leis de homens que me furtariam isto!

Pág. 332

O período em que se passa essa saga das famílias européias e o caos que gerou a Segunda Guerra Mundial, é na década de 20, 30 até o século XX.

Está escrito que, quando houvesse relativa paz na Terra, iniciaria súbita destruição. Foi assim o início da Segunda Guerra. Ninguém imaginava o tamanho da desgraça e muito menos a força com que ela se abateria sobre nós, poloneses.

Pág. 83

(...): o quanto vale a minha vida? E a das demais pessoas? Poderia ser dimensionada por quais parâmetros? Um valor em dinheiro? Uma quantidade de bens? A sua origem étnica ou religiosa? A sua preferência sexual? Os seus costumes?

(...) Sim, a guerra é uma injustiça, pois arranca de muitos tudo o que eles têm, sem dar-lhes nada em troca.

Pág. 99.

Esse diálogo entre Irena e um sobrevivente é de doer o coração:

- Valeu a pena ter sobrevivido?

(...)

- Pois para mim não. O único motivo pelo qual aceito viver é para realizar, ano após ano, as orações para a minha família e cumprir o desejo do coração de minha esposa. Nada mais. A esperança que tenho é de morte, pois da vida nada me restou, a não ser angústia pelo que assisti e tristeza pelo que vivi.

Pág. 128

Abaixo deixo um trechinho de uma carta linda que Irena escreveu durante a guerra para Jacob:

(...) Não pense que o meu coração é um barco à vela, que navega de amor em amor de acordo com o vento. Ele é mais fixo que as pirâmides do Egito. Ainda que as areias da vida tentem escondê-lo, ele permanece inabalável. Sei que está passando por muitas dificuldades. Onde está é horrível. Mas é seu dever continuar vivo. Levante-se por mim! (...) Escreva-me pacificando a minha alma e as minhas aflições. (...) Pois é melhor a certeza do não do que a agonia sufocante do talvez. (...)

Pág. 146

Treblinka. Auschwitz. Chelmno. O que estes nomes lembram? Cidades? Campos de Concentração? Morte? (...).

(...), o significado dessas palavras é a ausência total do respeito humano. É a negação da nossa própria raça. A desconsideração pura do que somos. O oposto da razão pela qual vivemos. O último estágio na nossa ignorância e o primeiro de nossa loucura.

Muitos sabiam. Ninguém impediu. (...), este foi o parâmetro da bestialidade. Passamos a tolerar gestos igualmente brutais, em menores proporções.

(...)

Pág. 177

Adorei diversos personagens, entre eles Rurik, Jan, Andrzej. Fiquei apreensiva e chocada com o que houve com vários, a quem aprendi a admirar, especialmente com o Rurik. Aí, não me segurei mesmo! Foi demais! Haja coração!

Adorei a capa desde que a vi. Na minha opinião, aquela pupila azul colorida em meio ao cinza traz um sinal de esperança, mesmo que remota, apesar da lágrima que corre devido a dor e ao sofrimento. A contracapa e as orelhas ficaram fenomenais, ainda mais com uma rosa vermelha caída. Só quem leu, saberá o seu significado e isso é tão pungente que, ao relembrar, me emociono!

A única exceção do livro é que faltou uma supervisão melhor na revisão, já que percebi alguns erros de digitalização entre outros, mas não há nada que prejudique ou interfira na história, que é excelente!

Quero agradecer muitíssimo à autora, porque através do seu livro me trouxe momentos reflexivos com muitos ensinamentos e questionamentos! Obrigada por ter me concedido a honra de conhecer essa obra inolvidável, preferencialmente nacional, que me proporcionou uma leitura profundamente envolvente e emocionante!

A leitura foi extremamente marcante e profunda! Não há como não se emocionar do princípio ao fim. As descrições da guerra eram detalhistas demais e, em diversos momentos, cheguei às lágrimas, pois tive a sensação de estar visualizando aquela situação de tão realista que era, porque o relato é surpreendente, apesar desse ser um período atroz que assolou toda a Humanidade! Uma leitura que toca no âmago do seu ser, porque desperta-nos para as agruras do século XX e a necessidade de um diálogo mais harmonioso entre nós.

Só para concluir, esse foi o melhor livro nacional que li esse ano de 2010, que ficará marcado em minha memória para sempre e, como não podia deixar de ser, estou indicando a todos os meus amigos!

Por isso, está mais do que recomendado!

A AUTORA

ANA PAULA BERGAMASCO

Paulista, descendente de italianos e espanhóis, aprendeu cedo sobre a saga da imigração. Formou-se em Direito pela USP, de onde recebeu uma menção honrosa por uma monografia centrada nos diretios internacionais do indivíduo. Com duas filhas, é casada, advogada militante e professora.

Para saber mais sobre a autora e sua obra, acesse:

Site:
http://apatridaolivro.blogspot.com/

Skoob:
http://www.skoob.com.br/livro/127084
Twitter: @anabergamasco

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11 comentários:

  1. hEYYYY Carlaaaa
    Tb ameeei esse livro, e chorei mt qd Rurik morreu, nossa foi péssimo :(
    Livro maravilhoso, e a capa é lindaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

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  2. Apátrida foi para mim mais do que um livro, foi um marco nas leituras do ano, me tocou profundamente e entrou para minha lista de indicações(indico para todos meus amigos).
    Sua resenha foi bem completa, disse tudo sem contar nada que estrague o livro, adorei!

    Leiam o livro, a resenha da Carla conta o que você pode encontrar no livro,mas com certeza vc nunca estará preparado para o que vai ler!

    Beijão!

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  3. Estou lendo ele também, e posso dizer que é quase impossível ficar insensível a tudo o que ela passou.
    O coração aperta, dá uma vontade imensa de fazer algo pra mudar tudo o que aconteceu.
    Estou mergulhada completamente em Apátrida e também já o considero um dos grandes lançamentos do ano.
    A força e a forma como a Ana Paula escreveu mexe com os nossos sentimentos, cada frase que me levou a refletir e também as lágrimas (confesso).
    Em breve estarei resenhando no meu blog, mas como estou amando o livro, estou lendo devagar, para poder saborear cada página.
    Coisa de leitora doida rs).

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  4. Todos falam muito bem deste livro, ainda naum tive a oportunidade de ler...


    http://conversandocomdragoes.blogspot.com/

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  5. Carlinha eu adorei a sua resenha!

    Estou doida para ler Apátrida, tenho certeza que será uma leitura inesquecível!

    bjs

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  6. Esse sem dúvida foi o melhor livro que li esse ano... a história é linda e as vezes a gente esquece que se trata de uma obra ficcional...

    beijos,
    Dé...

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  7. Ei Carla,

    Ótima resenha, o meu já está na estante esperando. Pretendo ler logo, só vejo ótimos comentários e já vi que vou chorar rsrs

    A capa é tãooo linda ^^

    bjo

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  8. A primeira coisa que nos chama atenção nesse livro é a capa que é belissima.

    Em seguida a sinopse que nos apresenta uma história cheia de elementos complexos e interessantes.

    Adorei a resenha. Me fez ficar com uma vontade louca de ler esse livro.

    Por sinal será minha próxima leitura.

    Beijos

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  9. Concordo com você, a capa é lindona, mesmo. Parece ser um livro muito bonito. Deu vontade de ler! ;)

    Bjs

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  10. Carlinha,

    Esse não é aquele que você se acabou de chorar??
    Ain, eu adoro livros sobre esse período, mas, putz, ando querendo ficar longe de livros que me farão chorar... =/

    Ain, vários livros esses meses eu vi com problemas de revisão. Poxa, é tão ruim quando isso acontece! Parece que faltou um cadinho de carinho com eles...

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  11. Olá, Carla, tudo bem?
    Sou eu quem agradeço pelo carinho e pela bela resenha! Mais feliz, por saber que também gostou do livro!

    Um beijão, Ana

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