A Resposta - Kathryn Stockett

A RESPOSTA
KATHRYN STOCKETT
Betrand Brasil


Depois de ter lido A Cor Púrpura
(que retrata a discriminação racial e os abusos sofridos por uma negra sulista analfabeta, que vivia em uma realidade dura de pobreza, opressão e desamor), e ...E o Vento Levou (cujo enredo se passa durante a Guerra de Secessão, onde uma mulher independente e voluntariosa luta por um amor não correspondido, enquanto assiste a devastação de sua família e de suas terras), respectivamente, das autoras Alice Walker e Margaret Mitchell, não tive como conter a emoção ao encerrar a leitura deste livro.

Em A Resposta, cujo original em inglês intitulado The Help, de 574 páginas, a autora abordou um tema complexo como a luta pelos direitos civis, o preconceito e a segregação racial nos Estados Unidos com uma sutileza e uma rara sensibilidade que tornou o livro profundamente comovente, cujo enredo é focado na vida de três mulheres - Skeeter, uma jovem branca de família abastada; e Aibileen e Minny, duas empregadas domésticas negras e pobres -, residentes da cidade de Jackson, no estado do Mississippi, na década de 60.

Abandonada pelo marido, Aibileen Clark é uma negra sábia e imponente que ainda não superou a dor da perda do filho, que estava progredindo na vida e sonhava ser escritor, o que a deixou amarga.

Fiquei surpresa quando vi que a vida do meu filho tinha parado, mas o mundo não.

Mas não demorou pra eu ver que uma coisa em mim tinha mudado. E eu não me sentia mais tão mansa.

Pág. 9

Trabalha na casa de Elizabeth Leefolt que, aos vinte e três anos de idade, é uma jovem preconceituosa e ranzinza. Já criou dezessete crianças e agora é devotada a Mae Mobley, uma garotinha que anseia pela atenção da mãe, que mais tarde pode se tornar uma pessoa amargurada e racista. Por isso, Aibileen quer ensinar bons sentimentos à menina, já que Elizabeth quer distância da filha.

Quero gritar alto pra Nenezinha que sujo não é uma cor, que doença não é a parte negra da cidade. Quero não deixar chegar aquele momento – que chega na vida de qualquer criança branca -, quando elas começam a pensar que pessoas de cor não são tão boas quanto as pessoas brancas.

Pág. 129

Casada, mãe de cinco filhos e sofrendo abusos de Leroy, o marido orgulhoso e bêbado, Minny Jackson, sua melhor amiga, é uma mulher negra extrovertida, honesta, forte, batalhadora e uma cozinheira excelente. Retruca com tudo, como também fica patética e confusa quando é agredida. Abandonou a escola cedo para sustentar a casa.

- Voltei para casa aquela manhã, depois de ter sido despedida, e fiquei parada do lado de fora de casa, usando meus sapatos novos de trabalho. Os sapatos pelos quais minha mãe tinha pago o valor de um mês de conta de luz. Acho que foi só o que entendi que era vergonha, e também a cor da vergonha. Vergonha não é escura, como pó, como eu sempre pensei que fosse. A vergonha é da cor do seu uniforme branco novo em folha que sua mãe pagou com o suor de noites a fio passando roupas pra fora, branco sem nenhuma mancha de sujeira deixada pelo trabalho.

Pág. 198

Teve uma vida sofrida por acobertar a própria raiva, cuidando de um pai bêbado durante dez anos e da irmã doente. Ela e a mãe trabalhavam como empregadas e, por conta da língua desenfreada, vive trocando de emprego, até que depois de ter sido demitida e difamada por toda a cidade pela racista Hilly Holbrook, vai trabalhar na casa de Celia Foote, uma mulher misteriosa.

Trinta e seis anos e ainda ouço a minha mãe me dizendo: "Não se meta onde não é chamada". Mas eu preciso saber do que essa mulher tem tanto medo fora daqui.

Pág. 66
Ela tem tantos arbustos de azaleias que, quando a primavera chegar, o jardim dela vai ficar parecendo o do E o vento levou... Eu não gosto de azaleias e, claro, não gostei desse filme, por causa do jeito que fizeram a escravidão parecer um grande e alegre chá das cinco. Se eu tivesse feito o papel da Mammy, eu teria mandado a Scarlett enfiar aquelas cortinas verdes no rabo branco dela. Fazer o seu próprio vestido de caçar homem.

Pág. 69

Aos vinte e dois anos, Eugênia Phelan, mais conhecida como Skeeter, é uma jovem de família abastada, graduada na universidade e que sonha ser escritora, jornalista ou romancista, enquanto sua mãe quer arranjar-lhe um marido, mas a jovem quer ser independente, ter seu próprio dinheiro longe da mãe e lutar pela sua ideologia, porque quer mudar as coisas ou escrever algo que as pessoas lessem.

Me pergunto se algum dia chegarei a escrever alguma coisa de valor.

Não. Eu não poderia. Isso... seria passar dos limites.

Pág. 120

Sempre teve o consolo de Constantine, a empregada negra órfã que a criou e ensinou a ter bondade e respeito por si mesma, com quem compartilhava segredos e foi a única mulher da sua vida a quem ela admirou, mas até hoje não sabe do seu paradeiro, que é um mistério, mas isso é esclarecido no final do livro.

Vou acreditar no que esses tolos vão falar de mim hoje?

Eu era inteligente o suficiente para entender que ela se referia às pessoas brancas. E, apesar de eu ainda me sentir mal e saber que, muito provavelmente, era feia, essa foi a primeira vez que ela falou comigo como se eu fosse algo além da filha branca da minha mãe. Toda a minha vida me disseram no que acreditar, em termos de política sobre os negros, já que nasci menina. (...), compreendi que, na verdade, eu podia escolher no que acreditar.

Pág. 86
Era como se ela tivesse simplesmente desaparecido. Eu tinha que aceitar que Constantine, minha única verdadeira aliada, havia me abandonado, deixando-me sozinha para me defender daquelas pessoas.

Pág. 94

Ela ainda não encontrou alguém que a amasse. A pedido das amigas
Hilly, presidente da Liga, e de Elizabeth, começa a sair com Stuart Withworth, o rude e bêbado filho do senador.

Editora do boletim da Liga começa a trabalhar como colunista em um jornal semanal sobre produtos de limpeza e, como é inexperiente no campo doméstico, procura Aibileen, que lhe lembra de Constantine por ser sábia e experiente, para ajudá-la. Depois de muitas conversas, que dão início a uma tímida e grande amizade, tem a ideia de escrever um livro, depois de ficar inquieta com os protestos racistas da tenaz Hilly, sobre como é trabalhar como empregada doméstica, enquanto tem medo de exigir um salário mínimo, já que ninguém paga os encargos sociais, e a maneira como são tratadas pelos patrões brancos e as condições em que vivem.

- (...) todo mundo sabe o que pensam os brancos, a figura glorificada de Mammy, que dedica toda a vida a uma família branca. Margaret Mitchell já fez isso. Mas ninguém nunca perguntou a Mammy o que ela pensava disso tudo.

Pág. 141

A partir daí, há uma reviravolta na história onde todos estarão arriscando seus empregos, suas vidas e a de seus familiares, por causa da forte tensão racial nos Estados Unidos e a luta pela igualdade de direitos civis, onde
Martin Luther King organizou e liderou marchas a fim de conseguir o direito ao voto, o fim da segregação e das discriminações no trabalho, além de outros direitos civis básicos dos negros, que eram espancados e discriminados diariamente, contra as Leis de Jim Crow, que proibia casamentos inter-raciais, exigia que as escolas e a maioria dos locais públicos (mercados, bebedouros, bibliotecas, cinemas, banheiros, estádios, incluindo meios de transporte como trens e ônibus) tivessem instalações separadas para brancos e negros ou que estes frequentassem a mesma universidade.

Por conseguinte, o livro é focado nas empregadas domésticas, criadas e educadas para sujeitar a todas as ordens dos patrões e criarem os filhos destes que, mais tarde, seguiriam as mesmas regras na qual foram criados de forma preconceituosa, já que tinham que viver segundo os preceitos e os ensinamentos impostos pela sociedade hipócrita, porque ser negro naquela época era a escória, mas a autora abordou esse tema com uma sutileza que foi capaz de me emocionar em diversos momentos da leitura.

O que resultaria revelar a verdade, já que
desprezavam brancos que reuniam com negros para ajudar no movimento de direitos civis?

E se Elizabeth ou Hilly descobrirem o que estamos fazendo? E se Aibileen for demitida, ou mandada para a prisão? (...). Será que a espancariam, como espancaram o rapaz negro que usou o banheiro dos brancos? O que estou fazendo? Por que estou fazendo ela correr esse risco?

Pág. 205

Este livro estupendo retrata fielmente essa época sombria no Mississipi e recomendo a todos, porque seus personagens são mulheres fortes e sensíveis, como também covardes e perversas, que cansadas de serem oprimidas, decidem extravasar seus sentimentos e unem suas forças de tal maneira que conseguem fazer uma grande diferença em suas vidas transformando-as para sempre.

(...): a bondade não conhece limites.

Pág. 404

Será que Aibileen e Minny encontrarão paz e felicidade? E Skeeter conseguirá encontrar um grande amor e realizar seu sonho?

A leitura fluiu de forma clara e pungente, sutil e, ao mesmo tempo, dilacerantemente tocante. Achei que o final foi muito apressado, o que me frustrou um pouco, porque queria saber o que ocorreu, já que tive a impressão que a autora deixou em aberto. Apesar das protagonistas terem tido um final, achei que algumas questões ficaram pendentes como no caso da Minny, da Hilly, uma megera que merecia ser castigada, da Elizabeth, da Celia, entre outros. Como deu a entender nas observações finais da autora, não terá continuação. Então, isso fica a critério de nossa imaginação.

Diagramação e revisão excelentes! Quanto à capa, sem a menor sombra de dúvida, prefiro a original, porque retrata fielmente o enredo do livro, já que raramente aprecio as capas movie tie-in.

Ao escrevê-lo, a autora teve sentimentos e emoções conflitantes, mas uma frase constada na obra é profundamente especial:

Não era esse o objetivo do livro, afinal? Que as mulheres se dessem conta: Somos só duas pessoas. Não há tanto assim a nos separar. Nada do que eu havia imaginado.

Eu adorei esta história de luta, visceral e emocionante, de coragem e esperança, com grandes lições, mas também extrovertido e profundamente humano, porque mostra como um simples gesto mudou tantas vidas.

O livro inspirou o filme Histórias Cruzadas, estrelado por Emma Stone, Viola Davis, Bryce Dallas Howard e Octavia Spencer. Tive a oportunidade de assisti-lo, mas apesar de ser fiel ao livro, não me agradou porque não conseguiu passar a mesma emoção deste, mesmo com atuações brilhantes e memoráveis.

15 comentários:

  1. Não li o livro, mas como gostei bastante do filme, desejo lê-lo o mais rápido possível.
    Eu também prefiro a capa original.

    Beijos!

    http://artearoundtheworld.blogspot.com

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  2. Clap, clap, clap (aplausos). rsrs Well, well. Adorei esse livro. Do começo ao fim. Aprendi, me emocionei. Adoraria ver o filme, mas ele ficou por pouco tempo em cartaz aqui em Fortaleza e eu ainda não tinha lido o livro, portanto não queria assistir antes.

    Ri muito com a Minny, me emocionei com a Aibileen, torci pela Skeeter. Esse livro tem uma história tão envolvente!!

    Vale a pena!

    Bjs.

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  3.  Oi, Carissa.

    Você vai adorar, porque o filme não conseguiu passar toda a emoção do livro.

    Beijos.

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  4.  Oi, Kassia.

    Depois de A Cor Púrpura, este livro me trouxe todas as emoções possíveis e você descreveu em poucas palavras tudo o que senti lendo-o!

    Torci, gargalhei, vibrei, me emocionei, chorei, gritei, enfim... é difícil você descrever em palavras o que sentiu no decorrer da leitura, mas é magnífico.

    Realmente, se tornou mais um na minha lista extensa de favoritos.

    As atrizes que interpretam a Aibileen e a Minny estão sensacionais no filme!

    Beijos.

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  5. oi carlinha!

    Gostei da sua resenha, acredito que vou gostar da história \o/

    Essa parte de adaptação de um livro me stressa, pois nunca sai do jeito que imaginamos kkkk

    Vou marcar na minha lista de compras kkkk

    Bjs

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  6. Oi Carla,

    Ótima resenha, eu também amei este livro. 
    Assisti ao filme estes dias, depois de terminar de ler, também tive esta sensação de apesar de ser quase fiel ao livro o filme não passa tanta emoção. 

    Bjos
    Nanda

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  7. Não sabia que esse livro era da história desse filme que eu tanto quero assistir. Confesso que agora quero ler o livro justamente por causa disso. Eu já tinha visto essa capa antes, aliás, eu ate´divulguei-a em meu blog uma vez na seção de lançamentos das editoras, mas não tinha lido a sinopse dela, pois achei que não me interessaria. E agora ao saber mais sobre a históira, depois da sua resenha, e saber que é justamente do filme que eu vi o trailer há alguns dias, quero muito mesmo ler. :)

    beijosss

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  8.  Oi, Ka.

    Você vai adorar!

    Também me sinto assim em relação às adaptações. São raros os filmes que conseguem ser fieis e superar os livros.

    Beijos.

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  9.  Oi, Nanda.

    Fico feliz que tenha gostado e em saber que não fui a única a sentir isso em relação ao filme. ^^

    Este livro já está na lista dos meus favoritos.

    Beijos.

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  10. Oi, Karina.

    Sério que você não sabia? Fiquei surpresa!

    Você vai amar essa história!

    Li-o antes de ver o filme para não me decepcionar, mas o livro superou em muito as minhas expectativas. Conseguiu me trazer um torvelinho de emoções que o filme infelizmente não conseguiu.

    Mesmo assim, confira os dois e tire suas próprias conclusões.

    Beijos.

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  11. Oi Carlinha,

    Eu queria muitoooo ver o Filme, mas não li o livro ainda e nem sabia que o título era diferente do do filme. Que confusão,gente! Em inglês o filme é The Help, no Brasil Histórias Cruzadas e o livro A resposta! Ai, meu pai! ahahua

    beijinhos,

    Carol*
    @caestrella @gabiemapuros 

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  12. To lendo e amando!
    Se pudesse corria com a leitura para terminar logo, mas ando tão cansada, nossa, mudança mata a gente!

    Ansiosa pelo desfecho dessa história!
    Amei a resenha, como sempre!
    Beijão!

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  13. Estou amando o livro, não consigo desgrudar dele quando começo a lê-lo..estou indo com calma pra vivenciar cada momento dessas mulheres tão fortes e diferentes..
    Parabens pela otima resenha!!!

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  14. Terceira resenha que leio desse livro hoje! Essa história parece ótima - eu tenho muita vontade de conferi-la =D

    Beijos, Nanie - Nanie's World

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  15. AVISO: Devido a um problema do DISQUS na época, alguns comentários dos leitores ficaram assim, com o meu nome. Infelizmente, até hoje eles não conseguiram resolver esse problema, por isso tive que ativar o do blogger mesmo. Agradeço a compreensão.

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