Casa de Verão - Marcia Willett

CASA DE VERÃO
MARCIA WILLETT
Bertrand Brasil


Primeiro livro da autora que leio (The Summer House, 308 p.) que traz uma história profundamente singela e que me surpreendeu em alguns aspectos.

Helen era uma jovem viúva que levava uma vida sofrida com dois filhos pequenos para criar - Matt e Imogen -, mas veio a falecer de depressão, pois se tornara dependente do alcoolismo, por não suportar a morte do marido, já que Tom era um escritor, jornalista e correspondente de guerra no Afeganistão.

Atualmente, Matt ė um escritor bem-sucedido, antissocial e solitário que carrega um grande vazio na vida, mas não entende o que ė. Amargurado, está com um bloqueio agonizante para escrever seu novo livro.


É por isso que escrevemos (...). Escrevemos por causa do vazio que sentimos; é por sentirmos falta de alguma coisa essencial que precisamos inventar mundos alternativos.
Pág. 23

Inquieto e analítico, com um senso de incompletude, deu um jeito de administrar seus demônios pessoais com uma bravura estoica, mas tem medo de compromisso e de seus demônios serem intoleráveis para a pessoa amada. Bloqueara sua habilidade de amar e se entregar por inteiro, porque aparentemente era autossuficiente.

Nunca se sentira seguro emocionalmente para arriscar um amor que fosse se desintegrando e acabasse sendo desprezado. Queria encontrar alguém que tivesse sintonia e compartilhasse os mesmos anseios.

Tinha lembranças, sentimentos estranhos e pesadelos que o assombravam desde pequeno devido a tantas perdas. Enfrentava uma batalha interna, porque lutava contra uma sensação esmagadora e angustiante de solidão como se lhe faltasse algo ou tivesse sido separado de alguém.


Era muito pior do que a solidão: era a angústia da perda e da separação real de alguém muito querido e insubstituível... Mas quem?
Pág. 54

Um dia encontra algumas fotografias -
entre as lembranças que sua mãe lhe deixara após falecer - e fica intrigado por não se recordar de nada, mas algo o intriga, principalmente nas fotos de sua infância.


Seria mesmo ele ali? Por que ele não se lembra daquelas roupas? Dos brinquedos? E mais: por que sua irmã, Imogen, não aparece nas fotografias?
- Sua mãe acabou de morrer, Matt. A morte de alguém próximo desperta em nós todos os tipos de dores e temores. Acho que você nunca aceitou a morte de Tom, apesar de ter escrito sobre isso durante anos. Se tem algo de que você não precisa mais é encher sua vida de tumultos, compromissos de trabalho e viagens para silenciar seus medos e negar seu sofrimento. Precisa deixar que seus pensamentos e lembranças venham à tona. Não estou dizendo que deva ser introspectivo, nem que deva ficar cutucando a mente para se lembrar das coisas; precisa apenas de um período de quietude perto das pessoas que o amam, caso queira companhia ou alguém com quem conversar sobre o passado. Temos medo do silêncio, não temos? Ligamos a televisão, pegamos um livro, telefonamos para alguém. Qualquer coisa para não nos sentarmos em silêncio. Tentamos fugir constantemente de onde estamos, do aqui e do agora. Achamos sempre que a vida vai começar no dia seguinte, ou em outro lugar. Mas, às vezes, esperar pacientemente e em silêncio revela algumas coisas...

- São estranhas, não são? Como se mamãe e eu tivéssemos tido uma vida secreta em algum lugar, e eu não conseguisse me lembrar.

Pág. 53

Só a Casa de Verão, uma antiga casa-ateliê e chalé que passou por diversos ancestrais da família de Milo, será a resposta para os seus questionamentos.

Matt tentou lembrar-se de quando aquela foto fora tirada, onde – numa das viagens ao exterior? -, por quem, e imaginou por que ela seria enviada a ela sem qualquer mensagem. Foi dominado por um temor irracional, e uma confusão imensa obscureceu sua mente.
Pág. 118

Enquanto isso, a confiante Imogen está casada com Jules, um veterinário sensível, prático, inflexível, mas também honesto e simples que trabalha como mėdico-assistente numa clinica em expansão, e tem uma filhinha fofa, Rosie. Infelizmente, ambos estão prestes a ficar sem moradia.

Ela queria que seu irmão encontrasse alguém em quem confiar para compartilhar a vida, porque mesmo sendo bem-sucedido não encontrou paz de espirito. Ele tornou-se cauteloso devido à infelicidade que teve com sua mãe.


Essa sensação de estar vivo somente pela metade, de estar mentalmente aleijado, era de desestruturar; afetava todas as partes de sua vida.
Pág. 115

Os dois passaram a depender de Lottie quando Helen se entregou à negação, ao desespero e ao silêncio.

Cunhada do ex-militar Milo - inteligente, agradável, agressivo, mas de bom coração -, ela era simpática, divertida e generosa, Sempre foi apaixonada por Tom e nunca teve o seu amor correspondido. Após sua morte, ela fora o suporte de sua família. Infelizmente, foi incapaz de proteger Helen do seu desespero e insegurança.

Desde então ajuda o antiquado e correto Matt a superar seus medos. Tem uma sensibilidade rara e possui dons premonitórios, porque trabalhou numa editora pequena e esotérica. Atualmente, sente que algo cataclísmico está para acontecer, mas não sabe o que é.

Desde que se divorciou da arrogante Sara, Milo tem um caso com Venetia, a orgulhosa, cínica, maliciosa, corajosa e inquieta viúva de um oficial. Sua ex-esposa vive atormentando-o por causa de seus bens e, para piorar, o seu filho Nick, está à beira do divórcio.

Humilhado e casado com Alice, uma mulher correta, rancorosa e mimada, Nick ė atraente e gentil, mas inseguro. Mesmo assim, não resiste a um flerte, porque impulsiona sua autoestima e tem muitos problemas por conta disso.

Nick, Matt e Imogen tinham um relacionamento liberal desde a infância, pois cresceram como irmãos, mas o amor ressurge entre ele e Imogen. Renasce uma paixão e colocam seus casamentos em risco por conta de suas imaturidades.

- Mas senti saudades de você, Im. Deus do céu, a vida está tão ruim no momento! Não consigo parar de pensar em você.
(...)
- Você sabe que eu amo você – disse. – Meu Deus, que tolos nós fomos, Im!
Pág. 147

Ela sempre conheceu suas fraquezas e forças. Sempre o aceitara como era e o apoiara. Ninguém nunca soube desse amor juvenil e do forte sentimento entre eles. Ele sempre fora amável e compreensivo, por isso busca consolo nela.

Apesar de ser charmoso e galante, Nick nunca conseguiu manter o vinculo frágil entre os pais. Ele sempre desejou ser popular, amado e admirado, pois era mais forte do que ser sincero consigo mesmo. Era influenciável e inseguro. Vivia cometendo deslizes, mas precisava ter coragem de ter suas próprias convicções, pois sempre passou uma imagem de alguém confiante e feliz.


(...) nós dois sabemos que nos amamos. Isso nunca irá mudar. Eu ainda gostaria que nós tivéssemos seguido nossos corações dez anos atrás, mas sei que agora é tarde demais.
Pág. 242

Imogen o amou incondicionalmente e sempre esteve ao seu lado. Eles se conheceram quando ela trabalhava no haras, porque ele era despreocupado e vulnerável. O que ele busca nela? Ela está disposta a lhe dar o que precisa? Colocarão em risco a sua amizade?

Ambientado no interior da Inglattera, o livro ė narrado em terceira pessoa e dividido em duas partes. A primeira nos introduz na trama e a segunda preenche as lacunas que permeia o mistério da história, tampouco piegas e que nos aproxima da nossa realidade, fazendo com que identifiquemos com os dramas de personagens tão cativantes e, ao mesmo tempo, intensos que vivenciam situações complexas e verossímeis.


A esperança lhe diz que, embora você não possa ver os resultados, se tem fé e se é sincero, o trabalho valerá a pena.
Pág. 251

Muitos terão dificuldade em se ambientar neste enredo denso, mas eu sou acostumada com leituras assim, porque sua narrativa lenta me remeteu a muitos dos meus clássicos preferidos, como os de Jane Austen, das irmãs Brontë e de Rosamund Pilcher, mas ao longo da leitura tudo foi se encaixando com as revelações acerca de um segredo que no final traz uma lição de fé na humanidade, com um futuro cheio de amor e esperança, triunfando sobre a saudade, a culpa, o medo e a escuridão que permeou e mudou completamente a vida dessa família extremamente complexa.

Apreciei a trama que tem todos os ingredientes presentes em qualquer romance do gênero, com intriga, mistério, amor, humor, aliado a paranormalidade, cujo desfecho foi inesperado por conta de um dos momentos mais emocionantes da trama em seu ápice quando me deparei com o desespero de Matt ao elucidar o que tanto o atormentava. Nesse momento, fiquei com o coração na mão.


2 comentários:

  1. Eu gostei muito desse livro, uma história bem interessante, com uma leve pitada de mistério e um final bem plausível.
    Gostei da escrita diferenciada da autora, que vai aos poucos nos introduzindo na história.

    Adorei sua resenha, passa muito bem o que se encontra na história.

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  2. Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas amei a história e principalmente e sua resenha.
    Beijinhos

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