Esta Terra Dourada - Barbara Wood

ESTA TERRA DOURADA
BARBARA WOOD
Record


Ambientado na Inglaterra do séc. XIX — 1846 a 1852 —, este romance histórico (This Golden Land, 406p.) narra a história de Hannah Conroy, uma jovem encantadora e humilde de 19 anos, que sempre lutou pelo direito das mulheres em uma sociedade machista e preconceituosa.

“É uma perda de tempo mandar as moças para a escola. Elas ficam presunçosas, achando que podem ir além de sua posição. Nenhum homem vai querer se casar com elas.”
Pág. 24

Órfã de mãe, trabalha como assistente de seu pai, um médico que cuida do povo do vilarejo e das fazendas da região de Bayfield e um humanitário que curava os males físicos e da alma, mas é perseguido em achar uma cura para o mal misterioso que matou sua esposa.

Autoconfiante, ávida por conhecimento, tímida e ingênua, Hannah sonha ardentemente em seguir os seus passos, mas naquela época essa profissão era proibida para as mulheres. Obstinada, não desistiu e viu na profissão de parteira uma porta de entrada para esse mundo, com o intuito de auxiliar os pacientes, mas seus planos são frustrados quando seu pai é injustamente acusado por aristocratas de erro médico e acaba vindo a falecer devido ao preconceito e a mentalidade estreita dessa classe e, consequentemente, por problemas cardíacos.

Antes de falecer, este lhe pede que encontre uma carta que pode esclarecer o mistério que permeia a morte de sua mãe, uma famosa atriz teatral que abriu mão da carreira por amor.

Sozinha, a jovem embarca para a Austrália — uma terra exótica, não construída por gêneros ou classes sociais — em busca de novas oportunidades e de um recomeço em sua vida onde viverá grandes aventuras, correndo inúmeros perigos com um único objetivo: encontrar as respostas aos mistérios do seu pai e, talvez, quem sabe encontrar um grande amor.

Durante uma viagem a bordo de um navio rumo a esse continente, seu caminho se cruza com o do americano Neal Scott, um geólogo, cientista e pesquisador, como também um aventureiro que deseja explorar essas terras desconhecidas com bravura e coragem, fazer novas descobertas e solucionar grandes mistérios.

Uma onda gigantesca bateu no Caprica pelo través fazendo o navio adernar tanto que Neal e Hannah pensaram que fossem virar. Hannah pressionou as mãos contra o pescoço de Neal. Ele baixou o rosto, ela ergueu a face, e os lábios de ambos se encontraram na escuridão apavorante num beijo intenso motivado por paixão, medo e um último ato de se agarrar à vida preciosa.
Pág. 68
(...) temia os segredos dela, pois, uma vez que os conhecesse, correria o perigo de ficar muito íntimo, de apaixonar-se, e isso não poderia admitir. Sabia que não havia futuro para os dois. Ela era uma quacre, ele, um ateu; ela era bem-nascida, ele, um bastardo; ela estava em busca de se estabelecer e exercer a profissão de parteira, ele tinha um espírito de aventura tão forte que jamais poderia ficar numa cidade por muito tempo.
Disparidades insuperáveis.
Pág. 57

Neal é intrigante, simpático, atraente e misterioso, mas possuía uma energia e entusiasmo contagiante por conta de sua determinação e autoconfiança. Teimoso, ele guarda um grande ressentimento no coração contra a mãe, que desconhece quem seja, porque nunca conseguiu perdoá-la por tê-lo abandonado na porta de Josiah Scott, um jovem advogado, decente e bondoso, que o adotou e o criou como filho, há 25 anos.

— Eu pensei em procurar meus verdadeiros pais. Mas eles não deixaram nenhuma pista. Por isso achei que não queriam que eu os encontrasse. Além disso, não tinha ideia de como começar a busca, e agora já se passaram 25 anos.
Pág. 51
— Há anos venho especulando sobre a dona desse frasco, como ela teria sido, quais seriam seus motivos para deixá-lo comigo enquanto me abandonava nos degraus da porta de um estranho. Creio que minha mãe deixou esse caro vidrinho comigo como símbolo de sua origem para que eu soubesse que não havia nascido de gente simples, mas de algum aristocrata na América.
Pág. 64

Tem um trecho presente na pág. 52 que adorei (Vide no Instagram do blog). É apenas uma das muitas passagens da vida do personagem que me emocionou, já que ele era livre para percorrer o mundo e explorar mistérios por não ter nenhum elo ou raízes. No fundo, ele é prisioneiro de suas mágoas profundamente enraizadas. Ele redescobrirá a si mesmo encontrando o seu lugar no mundo? Será que algum dia, será realmente livre mesmo que descubra a verdade sobre sua origem?! Este é outro  mistério que nos motiva a prosseguir com a leitura.

Tanto ele quanto Hannah não se encaixavam nos quesitos que a sociedade exigia. Ele por ser ilegítimo, loquaz e alegre, mas a vida se encarregará de torná-lo menos arrogante; já ela, era culta, buscava respostas aos seus questionamentos e se colocava voluntariamente em situações inadequadas para uma dama solteira.

Um dia inesperado e sem desconfiar, a jovem vai parar num bordel e descobre coisas horríveis sobre as crianças que são escravizadas e vítimas de maus-tratos (a história de Alice me deixou com o coração na mão, mas ao longo da trama descobre que o poder da bondade e da solidariedade pode incutir uma luz de esperança na vida de muitas pessoas que passaram pelo mesmo) nas mãos da cafetina, colocando sua reputação em risco e levando o seu caráter a ser questionado. 

Ao sair de lá, é salva pelo misterioso Jamie O'Brien — um nativo fora da lei procurado pelas autoridades locais — de ser atacada por um dingo. Aos 33 anos, esse vigarista astuto e ardiloso se vê cada vez mais atraído por ela. Além disso, ele possui um coração forte, tempestuoso e vive segundo suas próprias leis. 

Com sua sabedoria, caráter e qualificação, porém com a situação financeira cada vez mais precária, nossa heroína enfrentará desafios em busca de reconhecimento profissional, mas o destino insistirá em lhe pregar peças cada vez mais tortuosas. Em meio a sua ingenuidade, é uma moça madura para a sua idade, entretanto suas habilidades lhe causarão danos irreparáveis. Como se não bastasse tudo isso, tem sonhos recorrentes sobre a chave do mistério relacionado ao frasco de iodo e a morte de sua mãe.

Apesar dos laços amorosos e da experiência que compartilhara com Neal no navio, seu coração está cada vez mais pendendo para o lado do irresistível e errante Jamie, que sempre desfrutou de conquistas amorosas, mas se considerava imune ao amor. Será que essa imunidade se quebrará?

A ânsia por Jamie O’Brien, que crescia a cada dia, deixava-a assustada. Ela não estava apaixonada por ele. Seu coração ainda pertencia a Neal, mas seu corpo parecia ter mente própria.
Pág. 268

Cada vez mais confusa, se vê dividida entre o amor e a atração pelos dois homens. Será possível ser feliz e construir uma vida ao lado de alguém, mesmo que seus caminhos sigam o oposto do que sempre ansiou? 

Como era possível sentir-se atraída por dois homens ao mesmo tempo? E homens tão diferentes um do outro. Talvez fosse possível se as emoções também fossem diferentes. Seu amor por Neal era profundo e certo, fazendo-a ter um sono agitado e cheio de sonhos. Seus sentimentos por Jamie eram menos certos, menos definíveis e mais imediatos. A sensação era de que ele era proibido pra ela e, portanto, excitante. Talvez não fosse amor, mas desejo. Desejo, sem dúvida.
Pág. 274

Essa terra exótica pode ser um lugar de recomeço para todos? Talvez, mas sei que viverão muitos perigos e aventuras em meio a incêndios, motins, tempestades de areia, fenômenos da natureza selvagem, dingos ferozes, aborígenes hostis, tragédias em alto-mar e muito mais.

A capa me conquistou desde o princípio e seus tons alaranjados me recordou da capa de O Toque de Midas, da Colleen McCullough, publicado pela Bertrand Brasil, assim como a sinopse sucinta, que não dá ideia de tudo o que o leitor irá encontrar nessa história de superação, obstáculos pessoais, medos e desafios.

A escrita é envolvente em uma narrativa descritiva intercalando sob a perspectiva de cada personagem, principalmente de uma mulher de fibra e de um homem de caráter. Tudo vai se encaixando de tal maneira que cada um a seu modo mudará a vida do outro supreendendo o leitor, mesmo já prevendo o desfecho (Em vários momentos, visualizei cada paisagem e cena ambientada de tão bem descritas que foram).

Espera-se que uma parteira seja casada e tenha filhos. Caso contrário, é inapropriado para uma jovem solteira se expor a questões do quarto de dormir. E as mulheres não se importarão a mínima com seu treinamento formal se você não tiver passado por um parto. Se tem esperança de sobreviver aqui, minha querida, é preciso que se case antes.
Pág. 72

Com passagens profundamente tocantes tendo tudo para ser um livro inesquecível porque me lembrou muito dos romances de Colleen McCullough, que se passam em terras australianas; da trilogia da Família Cole, de Noah Gordon; e Mulher de Fogo (apesar de personalidades distintas, Hannah me fez lembrar de
Blair Chandler porque ambas lutavam pelos mesmos ideais), de Jude Deveraux pelo exercício da medicina. Mesmo sendo previsível, daria nota 4 ao enredo, mas chegou num ponto em que fui obrigada a dar um 3,5 no Skoob devido a algumas questões que achei totalmente desnecessárias e outras que ficaram nas entrelinhas e que poderiam ter um desenvolvimento melhor. 

Não vou mencioná-las aqui, senão estarei soltando spoilers imensos e não quero prejudicar a leitura de ninguém, mas serei bem sucinta sobre alguns fatos: gostaria de ter visto mais do Josiah e do filho falando sobre sua origem (seria muito interessante ver a reação e a emoção dos dois após uma passagem na trama); mais do Jamie (não curti o final dele, mesmo sendo o esperado) e de alguém que Neal conheceu enquanto esteve com os aborígenes. Fiquei me questionando o que realmente aconteceu com esses personagens que deixaram algo no ar. Senti falta disso, mas excetuando este detalhe é uma leitura fascinante.

Fiquei abismada com a gama de informações que eram até então desconhecidas por mim e aprendi muito, por isso que aprecio livros desse gênero (No comecinho do romance, tive vontade de partir para cima de um médico. Só lendo mesmo para a entender. Infelizmente, este tipo de mentalidade vemos até hoje). Detalhes sobre sangria, assepsia e até como se tratavam um câncer de mama me chocaram.

(...) estava convencido de que a noção de antisséptico era uma conspiração europeia com o intuito de atrasar a medicina em milhares de anos. Ele já ouvira a ideia insana de que os médicos deveriam lavar as mãos, era uma teoria surgida em Viena. Eles tinham o atrevimento de afirmar que os médicos eram a causa das infecções!
Pág. 17

Depois de ler este livro, fiquei refletindo sobre alguns aspectos da vida, ainda mais que sempre fui apaixonada pela medicina altruísta, como vi muito bem representada no personagem John Conroy, o pai da protagonista, e em alguns filmes ou seriados do gênero, o que infelizmente é cada vez mais raro nos médicos atuais.



3 comentários:

  1. Que resenha maravilhosa! Fiquei com vontade de ler... mesmo com os defeitinhos! Parece no mínimo interessante, né?

    Beijos, Lu!
    http://gimmeflowers.blogspot.com.br/

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  2. Também adoro ler.
    Já leu José Rentes de Carvalho ? é simples e delicioso. Pouco romântico, todavia.

    Gostei muito do seu blog. Vou passar a visita assídua.

    http://www.acontarvindodoceu.blogspot.pt/

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  3. Nossa, o livro é isso tudo mesmo?!

    Já quero, leitura para ontem.
    Tô saturada de leitura meia boca, quero algo que me toque profundamente e vejo que vou encontrar isso aqui.
    Obrigada amiga, por me mostrar o que eu estava deixando passar.
    beijokas!

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