Cidade dos Deuses - Evanice Maria Pereira

CIDADE DOS DEUSES
EVANICE MARIA PEREIRA
Butterfly

Todos sabem como sou eclética em minhas leituras e um dos gêneros que aprecio muito são os romances espíritas mesmo não sendo adepta desta religião. Este é o primeiro romance desta autora que leio, com 336 páginas.

O enredo se passa na cidade hindu de Naripura, em um reino temido e respeitado pela força e justiça de seu governante. Viasa era
amigo, bondoso, zeloso, compreensivo e justo, mas tinha a alma inquieta de incertezas e conflitos. Vivia ao lado da esposa Mádri e dos três filhos: Chandra (herdeiro e sucessor ao trono), Nanda (mensageiro que possui pureza, benevolência e senso de justiça) e Amálaca.

Os soberanos sempre os cercaram de mimos, prejudicando suas índoles com excesso de carinho
. Diferente de Nanda, que era uma criança triste, sem amigos, rebelde e infeliz, Chandra era uma criança incomum, adorável e inteligente, cuja alegria contagiava, mas tratava a todos igualmente sem distinção com sua atitude serena, imperturbável. Desde pequeno sempre foi teimoso, inquieto e assustador por causa das premonições e visões, que sempre ocultou por não compreender e devido aos boatos acerca de suas profecias e ditos incomuns consideráveis. Com um comportamento singular, vivia questionando seu Amigo oculto (uma entidade de força superior que o rege e o guia por toda a vida como um amigo calmo, gentil e cuidadoso) e sua voz interior, porque sentia um grande vazio que o angustiava.

Enquanto isso, os ascetas eram perseguidos por não se renderem ao culto da deusa de pedra Nari, porque Nura, o sumo sacerdote, ferrenho em sua devoção à deusa e à ordem das castas, teve uma premonição de que eles eram perigosos e poderiam destruir o reino se não fossem detidos. Acatando a ordem do rei, os místicos foram presos por infringir o decreto juntamente com o líder Sanjaia, temido por Nura, que era sereno, resignado e a personificação da paz.

Por outro lado, há um povo hostil no reino do Sul, governado por Sugriva, seu primo, que também tem um herdeiro, que os considera inimigos, que estão separados pelo ódio alimentado dos antepassados de Pandya e Naripura, que juraram vingança e desde então não há como reatar a amizade.

Algo como um mal estar, o incomodava diante do rapaz. Ele tinha um olhar perturbador e, mesmo sorrindo, demonstrava dureza, rigidez.

Pág. 116

O tempo passa e Chandra torna-se um rapaz belo, robusto, forte, leal, esperto, hábil e de educação invejável. Continua terno e preserva a doçura da infância, mas vivia disperso, indeciso com os seus ideais e relapso com a religião que não atendia aos seus anseios espirituais por viver em desacordo com as tradições, porque o viam como um rapaz distraído, problemático e arredio às devoções.

- (...). Sou diferente de todos. Não consigo crer na deusa do reino, tenho sensações, pressinto que devo fazer algo, mas não entendo o quê. Procuro um caminho e sei que nenhum deles, qualquer que seja, vai levar-me ao trono.

Pág. 76

Enquanto ele era amável, dócil e agia com o coração sem pensar nas consequências; seu irmão tinha um gênio terrível, era intempestivo por conta do temperamento explosivo e da mentalidade imediatista, da amargura e vivia se rebelando e agindo por impulso, mas ambos eram bons, doces e dedicados.

Um dia, Chandra entenderá a causa das premonições, porque não compreende a devoção do reino com preconceitos arraigados, devido às suas dúvidas e crenças contrárias.

Acaba se apaixonando pela camponesa e amiga de infância, Kadine, uma jovem encantadora, honrada e honesta. Essa relação é proibida por pertencerem às castas distintas, mas ponderados se entregam a esse amor impossível em segredo, porque os ministros, os súditos e o sacerdote protestariam veementemente contra esta união. Será que este amor falará mais alto?

- Na verdade, nem sempre podemos ter o que desejamos. Contudo, nem por isso devemos perder as esperanças de sermos felizes.

Pág. 129
- Teria coragem de me fazer tamanho mal, apenas porque não correspondo aos seus sentimentos? Que amor é esse que planeja a desventura do ser amado? Isso tem nomes: orgulho, inveja e vaidade. (...). Ouse me tocar, Ramai, e verá o que lhe acontecerá!

Pág. 135

Garanto a vocês que a maldade e a inveja imperarão sobre o reino, que está prestes a ter dias sombrios, devido às nuvens negras de maus presságios prenunciando uma grande tragédia: uma guerra sangrenta entre os príncipes herdeiros de reinos inimigos, que trará muita dor, provação e sofrimento a todos abalando duas cidades, dois reinos e várias famílias afetando todas as castas.

- Existem muitos tipos de combates, querido, não somente aqueles de que ouve falar, em que homens se enfrentam cruelmente com armas e derramam sangue. Vencer o medo, a tristeza, compreender a vida e seus caminhos também é uma maneira de combater sem armas e sem causar ferimentos.

Pág. 51

Encontrarão a paz e a serenidade para que possam retornar e reconstruir suas vidas? Poderão finalmente ser felizes?

O que achei muito interessante foi a distinção entre um rei e um plebeu pela linhagem de cada um. Apesar de serem escolhidos pelos deuses para governar uma nação, há soberanos maus e injustos, orgulhosos e arrogantes! Riqueza, posses e coroa não diferencia ninguém, porque são as nossas escolhas que nos definem.

- (...). As pessoas erram, Chandra, e não podemos julgá-las. Não somos capazes de conhecer a intimidade de cada um, a fundo, para julgarmos, sem cometer injustiças. Assim, tenha paciência.

Pág. 59
- (...). Quando somos meninos, temos uma tendência natural à receptividade e as impressões do mundo não nos tocam tanto. Então, vamos crescendo e moldando a nossa personalidade, de acordo com o que vemos e aprendemos. É aí que tudo se perde. Forçosamente, temos de recomeçar a subir degrau por degrau.

Pág. 120

A princípio a capa não me chamou a atenção, mas a ilustração e o título encaixaram perfeitamente depois que concluí a leitura. Tanto o design quanto o interior desta edição estão um zelo, apesar de ter encontrado alguns erros de revisão que me incomodaram, mas não interferem na história, que é excelente!

Sempre digo: “Nunca julguem um livro pela capa”, porque o enredo, situado na Índia, acabou me surpreendendo, principalmente no desfecho inesperado e emocionante em busca do autoconhecimento, porque é uma impressionante lição de amor e fé, ressaltando o despertar da crença no Deus único, séculos antes do nascimento de Jesus, e descrevendo os usos e costumes de uma época, o culto às divindades, os bastidores dos templos – onde os sacerdotes anunciavam a vontade dos deuses conforme os seus interesses –, e as diferenças que existiam entre as pessoas, separadas por castas, conforme faixas sociais distintas, como salienta a própria autora da obra.

No decorrer da leitura, que fluiu de forma envolvente, singela, transparente e profundamente tocante, a autora me transportou para dois mundos paralelamente incríveis onde visualizei o lado abastado e o das mazelas da população hindu e também vivenciei cada percalço trilhado por esta família de nobres em sua jornada, focada especialmente em Chandra que, mesmo com suas fraquezas e imperfeições, progride diante das maiores vicissitudes triunfando com muita paciência, humildade, fé e perseverança.

- (...). A vida é um presente de Deus. Cada existência é um período de aprendizado. Sempre existem soluções para nossas dificuldades, sejam elas quais forem.

- (...). Há uma razão para todos os acontecimentos, cada caminho se une e se completa com outro, nós interferimos nas vidas das pessoas e elas nas nossas. Tudo com um fim proveitoso. A Divindade Maior age com sabedoria, negligência nunca. Nada é por acaso.

Pág. 196

É um romance denso repleto de aventuras, mistérios, intrigas políticas e amores impossíveis para ser contemplado a cada página e refletirmos sobre todos os questionamentos e sábios ensinamentos que ela traz, como o quanto somos pequenos diante da magnitude de Deus, porque é tão difícil restituir a paz, mas tudo se assenta em meios às dificuldades como justiça, respeito, lealdade, fidelidade...

- (...): o lótus medra viçoso e belo, em meio ao pântano, sem que a imundície interrompa sua natureza maravilhosa, pois ele conhece o seu destino e cumpre a lei de sua existência. Eis aí a sabedoria do lótus

Pág. 61

Recomendo a todos que gostam de uma bela história, que incute grandes ensinamentos.

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