Crepúsculo de Outono - Antonio Demarchi

CREPÚSCULO DE OUTONO
ANTONIO DEMARCHI
Petit


Com 310 páginas, este é o primeiro livro do autor que leio e me surpreendeu não só pelo enredo, mas pelas lições que emana focada na espiritualidade. 

“Deus colocou na natureza as quedas d’água, para que o homem pudesse observar quanta energia ele pode tirar de suas próprias quedas.” — Emmanuel.
Pág. 78

Em 1970, em uma noite de tempestade, o Dr. Augusto — um médico bem-sucedido, casado e com uma filhinha de quatro anos — que se mudou para uma chácara, no interior de São Paulo, por questões de segurança devido a violência na cidade grande, acaba matando acidentalmente com um tiro um invasor e, em seguida, escondendo seu corpo com a intenção de proteger sua família, mas não sabe que, a partir daí, se compromete ainda mais com os desígnios divinos.

O suposto invasor era Aprígio, um camponês do sítio vizinho que levava uma vida pacata e despretensiosa ao lado da esposa Milene e do filhinho de seis anos, Carlinhos. Viera buscar auxílio para o filho que estava convalescente. Era um homem humilde e prestativo que fazia algumas vistorias nas chácaras da região e trabalhava duramente na lavoura para dar uma vida melhor ao filho.

Por que tamanha desgraça em sua vida? Nunca tivera coragem de tirar a vida de um animal, quanto mais a de um ser humano! Por quê, meu Deus?, perguntava para si mesmo, sem obter resposta.
Pág. 16

Cada vez mais angustiado e arrasado porque tinha um grande carinho por Aprígio, que admirava-o, Augusto tenta reparar o mal, porque desde então perdeu sua paz de espírito por conta de um peso n’alma devido ao sentimento de culpa irremediável. Será que essa sensação ficará menos impiedosa com o passar do tempo?

Depois de cinco anos, seu casamento está em crise devido ao egoísmo, futilidade e ciúme excessivo da esposa, por quem é apaixonado apesar das diferenças.

Dez anos depois, ele ainda não consegue tirar esse sentimento de culpa dentro do peito e livrar-se dessa angústia, pois desde a noite fatídica tudo o que fizera era insuficiente para apaziguar seu espírito.

Como se não bastasse, sua esposa o abandona impulsivamente e faz com que perca o convívio com a filha amada. Sem compreender sua atitude, ele fica cada vez mais ressentido e amargurado.

Apesar da dor e da incompreensão, precisa tomar uma atitude para seguir em frente. Com sua consciência o acusando e não conseguindo fazer as pazes com Deus, como minorará as consequências dos seus atos expiando sua culpa que o atormenta cada vez mais?

— (...). Mas daí a submeter nossa filha à prática do aborto é algo que não irei admitir nunca! E nem pense em forçá-la a fazer isso, pois, se o fizer, sou capaz de denunciá-la!
Pág. 235

Em meio aos reveses da vida e às sombras de um passado esquecido — cujo mal fora semeado no final do século XVIII, na época da Revolução Francesa —, que teima em fazê-lo sofrer, o médico encontrará a verdadeira felicidade superando esta dura e triste realidade?

Mas quem somos nós? Não sabemos que até nos acontecimentos mais tristes sempre encontramos uma oportunidade valiosa de aprendizado?
Pág. 129

Além da história de Augusto, me deparei com outras tão emocionantes quanto, entre elas:

  • Joaninha: uma garota de 13 anos, que sofria abusos, cujo caminho se cruzará com o do Dr. Augusto (teve um momento que me revoltei com a mãe da garota. Só lendo para entender o que estou falando). Sua história foi tocante. Ela será acolhida por uma alma caridosa?;
  • Denise: uma jovem, cujos pais não dialogavam e nem prestavam atenção aos filhos, que era muito apegada ao irmão. Devido aos percalços do destino, acabou se perdendo nos excessos levando uma vida sem sentido correndo atrás de futilidades, até que uma tragédia abalou sua vida e a de sua família para sempre (Infelizmente, essa foi bem atual. Muitas famílias se identificarão com esse drama, assim como com o de Filomena);
  • Filomena: uma idosa que trabalhou na lavoura a vida toda para sobreviver e sustentar os filhos. Sozinha, desamparada e cansada do trabalho infrutífero, perdeu as esperanças de ter uma boa aposentadoria que a acudisse na velhice. Desistirá de viver? Só sei que esta foi uma das partes que me emocionou juntamente com a história de Antonina.
  • Antonina: uma jovem humilde e pura da periferia que sonhava estudar para ter uma vida melhor. Com seus bens escassos, abdicou do sonho para trabalhar e ajudar seus pais no sustento da casa. Um dia acaba sendo vitima da violência nas ruas (esta cena me chocou!) e não tem coragem de contar à família e ao noivo que está grávida. Por isso, sofre cada vez mais e tenta o suicídio, mas após ser socorrida durante um atropelamento, que a deixa com sequelas, alguém muito especial muda sua visão sobre a vida e a família, já que se desiludiu e sofreu todo tipo de humilhação por preconceito, intransigência e incompreensão dos pais. Ela se restabelecerá,  reencontrará o que tanto anseia e será feliz?

Quem sabe, aquele filho não seria a alegria de sua vida; aquele que haveria de lhe dar forças para seguir em frente, apesar da frustração de não poder oferecer seu amor àquele que seria o homem de sua vida? Pág. 142
— (...) não podemos ligar para o falatório dos vizinhos, se temos consciência tranquila. Será que é por ser meu filho de cor? Quem são eles para nos criticar? (...), cada um deveria ocupar-se com sua própria vida, em vez de ficar olhando para os outros.
Pág. 179

O livro abrange através dos espíritos de luz diversas questões, entre elas: racismo, preconceito, desregramento sexual, perversão de valores, falta de diálogo, gravidez indesejada, aborto (teve uma cena numa clínica que dilacerou o meu coração pela crueldade do ser humano), suicídio, família desestruturada, vida desregrada pelos excessos em álcool, drogas e sexo.

(...), o dom da maternidade era uma bênção divina. Um ser gerando outro ser, no milagre da vida! Em minha concepção, não havia nada mais sublime que a mãe preparando no refúgio de suas entranhas uma nova vida, que depois embalaria em seus braços! (...). Por que o ser humano mata o próprio filho?
Pág. 25
— (...). Entretanto, muitas vezes a evolução ocorreu apenas na aparência, não na essência, alguns sentimentos que ainda mantemos adormecidos em nosso coração demonstram que nós ainda acalentamos uma fera dentro de nós. (...).
Pág. 26
— (...). Os pais ainda são os grandes responsáveis, por não determinarem aos filhos os seus limites. É geração que tudo pode, e que infelizmente descobre, às vezes muito tarde, que, se tivessem recebido dos genitores posturas mais firmes, muitas dores poderiam ter sido evitadas.
Pág. 27

Amei o design gráfico tanto da capa e contracapa quanto do interior desta edição entremeados por folhas outonais, que está um zelo. Apesar de ter encontrado alguns erros de revisão, os mesmos não interferem na trama, que me surpreendeu, principalmente por tudo ir se entrelaçando e, consequentemente, vamos desvendando o que há por trás dos erros passados de cada personagem, porque é uma impressionante lição de amor e fé, como também de aprendizado.

— A vida é um livro que vamos escrevendo a cada passo, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Cada dia é uma página que viramos. Cada lição é um aprendizado, cada conquista, um capítulo que vamos compondo e deixando registrado em nossa existência. As lembranças amigas e agradáveis trazem-nos suaves recordações e saudades de momentos inesquecíveis em nossa memória. Todavia, existem outros acontecimentos que gostaríamos que fossem apagados de nosso livro; que fossem banidos de nossa lembrança, para sempre, qual folha de outono, soprada pela fúria dos ventos.
Pág. 257

A leitura fluiu de forma envolvente e transparente, porque é um romance denso repleto de mistérios, intrigas, amores e desafetos para ser contemplado a cada página e refletirmos sobre todos os sábios ensinamentos e questionamentos que traz transmitindo lições de força, coragem e altruísmo.

— (...); outras vezes, fazemos de nosso lar, que deveria ser um santuário de paz e harmonia, um inferno e um campo de batalha. Falta-nos a caridade com o próximo “mais próximo”, que são nossos familiares queridos. Falta-nos a tolerância e a paciência, nós nos irritamos e frequentemente criamos um ambiente de antagonismos, quando deveríamos estar cultivando o amor e a tolerância.
Pág. 257
— (...). Vamos aprender no exercício constante da tolerância, da abnegação, da renúncia, do perdão, a servir sem exigências e a amar com desapego, pois dessa forma estaremos certos de que aqueles que hoje não nos compreendem, um dia perceberão que o tempo se encarrega de transformar a pedra bruta em diamante refulgente; (...).
Pág. 48

Um romance que nos mostra que na vida nada é por acaso, há sempre uma razão lógica para todos os acontecimentos, porque Deus em sua infinita bondade não relega nenhum filho seu ao esquecimento e ao abandono eterno.


7 comentários:

  1. Parece um livor bem profundo. Eu leria, com certeza.

    Beijos,
    Carissa

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    1. Oi, Carissa.
      Foi essa profundidade reflexiva que me surpreendeu.
      É uma grande lição de vida.
      Beijos.

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  2. Que capa linda, Carlinha *-* Acho que fiquei uns bons momentos hipnotizada pela capa sem conseguir ler a resenha de tanto que ela me chamou a atenção!

    Sabe o que mais me prendeu depois que consegui parar de admirar a capa e ler a resenha?! Que o livros mostre que nada é por acaso.
    Parece ser uma leitura maravilhosa e engrandecedora!

    Beijos,
    Nanie

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    1. Oi, Nanie.

      A capa é maravilhosa e juntamente com o conteúdo abrilhantou ainda mais a obra.

      Além de engrandecedor, ele nos enriquece demais por ser uma grande lição de vida.

      Beijos.

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  3. Achei essa capa perfeita, me lembrou as fotos que pesquisei quando queria montar o lay do blog, bem outonal.
    Sua última frase diz tanto, que deu uma vontade enorme de ler o livro.
    Não conhecia, mas pretendo conhecer.

    Beijos amore!

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    1. Oi, Leninha.
      Quando eu vi a capa, lembrei na hora do seu blog. Linda, né? Dá uma sensação de paz.
      Não tenho palavras suficientes para descrevê-lo. Só digo que é uma grande lição de vida.
      Beijos.

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  4. Muito lindo seu blog, já estou seguindo, venha fazer uma visita ao meu quando quiser, http://ateliecantinhodoceuroo.blogspot.com.br/ DEUS abençoe sempre e muitas beñçãos e prodigios em sua vida.

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