Filha da Floresta - Juliet Marillier

FILHA DA FLORESTA
JULIET MARILLIER
Butterfly


Este romance (Daughter of the Forest, 608p.) histórico e medieval é o primeiro volume da trilogia Sevenwaters, inspirado no conto germânico Os Seis Cisnes – mas também publicado no Brasil como Os Cisnes Selvagens (que li na minha adolescência e me apaixonei!) –, dos irmãos Grimm.

A autora me encantou por mostrar uma história onde personagens fortes e corajosos aprenderão sobre o poder da perda diante das adversidades antes de se reencontrarem, porque há um limite tênue entre a luz e as trevas.

Aos 12 anos, Sorcha tinha uma infância feliz ao lado dos seus irmãos – os gêmeos Conor (druida, sábio adepto dos mistérios antigos e sutil) e Cormack (um guerreiro bravo e destemido), o íntegro Finbar (acolhedor, usa suas forças para curar os males humanos), Padriac (tinha sede de conhecimento acerca de qualquer criatura viva ou não), o alegre Diarmid e Liam (um líder nato, protetor e solene) , que a educaram porque estimavam-na, já que sempre tiveram uns aos outros.

Todos eram fortemente ligados emocionalmente e espiritualmente, além de terem um dom especial devido à herança deixada por sua mãe, que faleceu após seu nascimento: tratar e amar os animais e a natureza, fazer reparos, auxiliar o próximo e todas as atividades inerentes da época.

Crescendo em meio à natureza, livre e selvagem no âmago desse lugar místico, Sorcha tornou-se uma ótima contadora de histórias e curandeira por seu amor e conhecimento das propriedades das plantas e ervas. Despretensiosa, com opiniões próprias, além de forte e desobediente, ela era a única mulher, que era pra ser o sétimo filho de um sétimo filho, que seria dotado de poderes mágicos e protegido pelos Seres da Floresta.

– Pois eu não vou me casar por conveniência – respondi decidida. – Jamais! Como se pode passar a vida com alguém que te odeia ou com quem nem se tem o que conversar? Prefiro ficar solteira.
Pág. 44

Lorde Colum, seu pai – um soberano respeitado e temido por todos –, era um homem justo, rígido e reservado. Obcecado pela guerra, era um estrategista militar. Por isso, treinava intensamente seus filhos nesta arte para que um dia enfrentassem seus inimigos, entre eles os bretões – povo da Grã-Bretanha. 

Por isso, buscam vingança para recuperar suas terras por direito, porque podem perder tudo o que tem, inclusive sua cultura que pode ser destruída para sempre.

Infelizmente, alguns filhos eram contrários à ideia de guerrear por discordarem de seus métodos.

– (...). Podemos não saber exatamente qual é o propósito deles ao tomar nossas ilhas e estabelecer um feudo. E seria muito mais inteligente nos unirmos a eles para lutar contra os inimigos que temos em comum. Mas não. Sua estratégia, assim como a deles, é matar e mutilar sem fazer perguntas. (...). Esse caminho só leva à morte, ao sofrimento e ao arrependimento. Muitos podem segui-lo, mas não conte comigo.
Pág. 27

A família vivia na província de Sevenwaters – um lugar místico, isolado e guardado por um exército, cujos líderes viviam em batalhas constantes. Por isso, não se sentiam seguros fora da floresta e além-mar.

E, como se não bastasse, alguns dos irmãos terem ajudado um prisioneiro insano, que foi capturado em suas terras e brutalmente torturado que será a peça-chave fundamental na trama , arriscando suas vidas; ainda tem de lidar com o casamento iminente de Lorde Colum. 

A partir daí tudo vira um verdadeiro inferno, porque seu pai fica cego sob a influência de Lady Oonagh, uma "bruxa" poderosa que faz com que ele perca o bom-senso desunindo a família, partindo o elo que os une. Ela conseguirá destrui-los?

Todos a repudiavam pelo que era e pelo que ambicionava. Mesmo não sabendo qual sua verdadeira intenção, conseguirão impedi-la antes que seja tarde demais?

– Você vai descobrir, filha da floresta. Através de dor e sofrimento, de grandes obstáculos, de traição e perda, você seguirá seu caminho.
Pág. 78

Terão uma longa jornada pela frente, especialmente Sorcha, que tenta salvar seus irmãos que foram amaldiçoados. Eles estão cada vez mais vulneráveis e desesperançados porque sentem que falharam com sua família.

Foragida e sozinha, ela sofrerá muitas privações para cumprir uma tarefa árdua, penosa e perigosa com o intuito de salvá-los.

– (...). Do momento em que deixar este lugar até a hora do retorno de seus irmãos à raça humana, você não poderá emitir qualquer som, sejam palavras, gritos ou canções. E não poderá contar sua história por meio de desenhos, cartas, gestos ou o que quer que seja, a qualquer criatura. Deverá silenciar-se completamente, ser tão muda quanto os cisnes. Se quebrar o silêncio, a maldição permanecerá para sempre.
Pág. 178

Dois anos depois, aos 14 anos, seu caminho se cruza com o de Lorde Hugh – um guerreiro rude e destemido conhecido como Red. Bretão e herdeiro de um grande feudo, amava sua família, suas terras, mas não se deixava intimidar pela opinião alheia, já que sua vida já estava planejada. 

Aos 22 anos, era forte, íntegro, racional e idealista, mas também capaz de muita fúria, coragem e cavalheirismo. Guarda um segredo acerca do seu passado e quer desvendar o paradeiro de seu irmão.

Como ficaria a gentileza de Lorde Hugh depois de ouvir tudo isso? Conseguiria manter sua promessa depois de saber o que eu tinha feito com seu irmão? Eu já vira aquele rosto e aqueles olhos se tornarem frios e implacáveis. E já ouvira sua voz se alterar e sua argumentação ferina, (...).
Pág. 348

Com o intuito de desvendar esse mistério e, sem dar chance de escolha, ele a tira do seu país tornando-a cativa. No meio do caminho conseguirá salvá-los de perigos terríveis? Mesmo magoando-a com sua arrogância, conquistará sua confiança despertando-a para um novo sentimento?

E ela dividida entre o senso de amor e lealdade com seus irmãos e possuindo uma força de vontade, coragem e doçura , entregará seu coração a um inimigo? 

Diante das adversidades e de tantas reviravoltas, eles esmorecerão e deixarão o mal prevalecer? Sorcha conseguirá reverter o feitiço que paira sobre seus irmãos? Conseguirão salvar suas terras de uma ameaça ainda maior que paira suas vidas? Será que depois dessa longa e árdua jornada, ainda resta um fio de esperança para a felicidade?

Tudo que restou para ele foram as lembranças de cada momento em que ela lhe pertenceu. Era tudo que ele tinha, e sem ela se sentiria sozinho.
Pág. 545

Tanto a capa – que refletiu exatamente o enredo – quanto o design gráfico e a diagramação estão primorosos. Claro que encontrei alguns erros de revisão, mas são ínfimos e relevantes diante de 608 páginas.

Pela primeira vez, não consegui externar completamente tudo o que senti ao longo da leitura dessa obra – narrada em primeira pessoa pela protagonista, ambientada na Irlanda e que retrata a mitologia celta do século XIII –, que entrou para a minha lista de livros inesquecíveis por se tratar de um enredo fascinante e muito bem desenvolvido.

Mesmo sendo um livro repleto de magia, misticismo e seres sobrenaturais tanto benevolentes quanto perigosos, aventura, mistério, suspense e, claro, romance. Alguns personagens são céticos acerca desse mundo paralelo. 

As cenas foram tão bem descritas que até conseguia visualizar e sentir o aroma da natureza. Juliet me transportou para um universo ricamente detalhista, com uma sensibilidade nata tornando seus personagens bem construídos – com qualidades e também defeitos e humanamente verossímeis com emoções tão palpáveis inerentes à nossa condição, que não tem como o leitor não se identificar em algum momento através de suas vivências e experiências.

Em diversos momentos, me encantei, fiquei chocada, ri e chorei tanto de emoção quanto de raiva. Vivenciei os dramas de cada personagem, incluindo suas alegrias, desilusões e tristezas; seus sonhos e anseios; suas angústias e conflitos.

A autora abordou algumas questões bem atuais e que nos mostra a dualidade do ser humano em seu lado benigno e maligno através da honra, confiança, coragem, amor, perversidade, falsidade, covardia e ódio.

No decorrer da leitura, uma cena no sexto capítulo – mais precisamente nas páginas 229 a 231 –, me chocou profundamente pela crueldade e pela humilhação em dose dupla, ainda mais por achar este um ato abominável e repudiável, que fez com que a personagem perdesse a fé e a confiança no ser humano (Quem leu saberá a que estou referindo-me).

Depois de tudo que fizeram comigo, eu não conseguiria mais me deitar (...), nem que fosse para simplesmente dormir, por mais que fosse alguém de confiança. E não confiava em Red, não com seus olhos frios e seus silêncios.
Pág. 283

Apreciei como o enredo foi conduzido, porque a autora deixou transparecer em cada momento o quanto é importante acreditarmos e termos fé, respeitarmos a fauna e a flora, e vivermos a vida com simplicidade, porque a beleza dos relacionamentos está na singeleza das pequenas coisas.

– Há tantas formas de se tornar um herói quanto os galhos de uma grande árvore. Podem ser formas maravilhosas, terríveis, simples ou complicadas. Elas se unem, se separam e se interligam novamente, e você pode segui-las da maneira que desejar.
Pág. 111

Red me trouxe uma complexidade de emoções em meio à aflição, dor, fúria e ódio de si mesmo, mas o que realmente me cativou nele é que por trás dessa máscara de frieza e autocontrole, havia um ser humano doce e incrível com algo tão profundo que emanava intensidade e sutileza, mas não deixava que isso transparecesse.

Gostei de ver a química entre os protagonistas, mesmo diante de tanta fragilidade. Tudo foi evoluindo paulatinamente a duras penas, o que fez com que me encantasse ainda mais por eles.

(...), não conseguia ignorar as imagens que vinham do meu coração. Eu o queria tanto. Queria que estivesse ali, ao meu lado. Sentia falta de seus braços ao meu redor, de ouvir sua voz suave, de ver como lutava para controlar seus sentimentos.
Pág. 562

Dentre tantos livros que já li, nunca vi uma mocinha sofrer com tanta crueldade quanto Sorcha, mas ela mostrou do que é capaz uma mulher determinada, corajosa e perseverante em busca de seus ideais. Ao longo da leitura, vemos a evolução da personagem com o passar dos anos abdicando de sua vida em prol do amor incondicional por sua família.

(...) meu coração estava triste e vazio, minha mente só via um futuro de solidão, de incerteza e de sonhos não realizados.
Pág. 550

Uma leitura envolvente, intensa e visceral, que traz em suas entrelinhas ótimas reflexões. Como diria Shakespeare: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”. 

Mesmo mexendo profundamente com o nosso emocional, não tem como não torcermos até o fim pela felicidade e pelo destino de cada um dos personagens. Quando julgamos que as esperanças estão perdidas, acontece uma grande reviravolta que culmina em um desfecho pra lá de emocionante e que você anseia durante toda a narrativa.
 

Trilogia Sevenwaters

1. Filha da Floresta (Daughter of the Forest)
2. Filho das Sombras (Son of the Shadows)
3. Filha da Profecia (Child of the Prophecy)


6 comentários:

  1. Eu não tenho palavras para descrever o quanto eu amo essa série!
    Só que não é mais uma trilogia. A série é composta por seis livros:
    Daughter of the Forest
    Son of the Shadows
    Child of the Prophecy
    Heir to Sevenwaters
    Seer of Sevenwaters
    Flame of Sevenwaters

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    1. Oi, Bárbara.

      E pensar que nunca tinha lido nada da autora. Me apaixonei por sua escrita.

      Até pesquisei a respeito da série, mas fiquei em dúvida.

      Obrigada pelo esclarecimento. ^^

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  2. Putz, Carlinha! O livro parece bom demais *-*

    Beijos,
    Nanie

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    1. Oi, Nanie.

      Foi um dos melhores livros que eu li. ^^

      Vale a pena se aventurar a cada página que você nem percebe a quantidade de páginas.

      Beijos.

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  3. Pelo visto, é mais uma trilogia para ser adicionada nas minhas leituras.
    Bjs, Rose.

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    1. Oi, Rose.
      É uma das melhores que li.
      Fiquei sabendo que virou uma série composta por 6 livros.
      Beijos.

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