Ruínas do Tempo - Jess Walter

RUÍNAS DO TEMPO
JESS WALTER
Verus Editora


Primeiro romance (Beautiful Ruins, 364p.) do autor que leio e me surpreendi.

Esta é uma história de amor, diz Michael Deane.
Mas, realmente, qual história não é?
Pág. 349

Pasquale Tursi, o apaixonado dono de um hotel em Porto Vergogna, um vilarejo isolado e belo na Itália, sempre foi muito tranquilo e tolerante. Aguentava as piadinhas de mau gosto dos pescadores por causa de seu jeito introspectivo e esperava que algo inesperado acontecesse em sua vida, já que carrega uma tristeza profunda em relação a alguém que amou e desapareceu no passado.

Ela lhe dizia frequentemente que ele não a amava de verdade, (...), que ela era velha demais para ele, que não foram feitos um para o outro, que eram de classes sociais diferentes, que ele precisava de uma garota que tivesse a mesma idade (...).
Pág. 134

Após perderam os outros filhos na guerra, seus pais foram superprotetores com ele. Assim como o seu pai já falecido, herdou o sonho de tornar o lugar acessível aos turistas. Vivia com a mãe excêntrica e convalescente juntamente com a tia materna doida.

Alvis Bender, um veterano do exército e escritor fracassado, mas charmoso e bêbado, se hospedava anualmente no hotel italiano para lapidar a obra de sua vida baseada em suas experiências durante a Segunda Guerra Mundial.

Eu deveria estar feliz simplesmente por estar vivo, mas estava na parte mais depressiva da minha guerra, com medo, sozinho e percebendo fortemente o barbarismo à minha volta.
Pág. 86

Até que um dia, Pasquale recebe uma hóspede inusitada: a americana Dee Moray, uma atriz coadjuvante, que saiu de uma cidade pequena para estrelar Cleópatra e está com os dias contados devido a um câncer.

Que tipo de homem enviaria uma mulher doente para uma vila remota de pescadores e depois a abandonaria ali?
Pág. 125
— A garota americana? Ela ama o outro homem que estava aqui, o ator britânico. Ela não se importa comigo. Tudo isso aconteceu a troco de nada!
Pág. 237

A partir daí, Dee muda a vida de todos para sempre.

Sinto tanta falta de atuar quanto de amar. Sou alguém pela metade sem isso.
Pág. 278

Após conhecê-la, Pasqo mudará de ideia em relação ao seu futuro e ao amor desaparecido do passado?

E Dee? O que ele diria a ela? Revelaria o caráter desse homem que ela amava, (...)?
Pág. 158

Apesar de a história ser centrada no italiano, há muitas tramas paralelas, cujas vidas serão entrelaçadas em Hollywood, na Califórnia, quando Pasquale procura Michael para saber do paradeiro de Dee, porque não a vê há quase cinquenta anos e quer encontrá-la.

— Diga que pretendo fazer isso imediatamente, que considero uma honra poder ajudá-lo e uma oportunidade de me redimir. Completar o ciclo de coisas ao qual dei início há tantos anos. E, por favor, diga que nunca tive a intenção de magoar ninguém.
Pág. 111

Entre os personagens secundários estão:

O conservador Michael Deane, o lendário produtor cinematográfico que anos antes levou Dee para a Itália.

Claire Silver, sua idealista assistente-chefe de desenvolvimento, ama filmes clássicos (Bonequinha de Luxo), paixão que herdou de seu pai, mas desistiu do seu grande sonho. Mestre em cinema e vídeo, a jovem quer trabalhar no MCCA e ignorar essa carreira desprezível. Vive angustiada por conta de suas expectativas em relação ao sucesso e seus valores morais. Usa seu cinismo como defesa devido à angústia de não saber se voltará ao mundo acadêmico. Não bastasse tudo isso, seu relacionamento amoroso está em crise, pois seu futuro ao lado do namorado está incerto. Tem seu desejo fracassado de Michael fazer um grande filme como os inesquecíveis clássicos.

Se nenhuma ideia para um filme bom e viável entrar pela porta hoje, vou pedir demissão.
Pág. 27
Não pertencemos a ninguém, e ninguém nos pertence.
Pág. 35
Alguma coisa naquele nome a afeta também — um choque do reconhecimento do romantismo, aquelas duas expressões, momento e para sempre, como se ela quase fosse capaz de sentir os cinquenta anos de saudade que existem naquele nome, cinquenta anos de uma dor que está dormente dentro dela também, e que talvez esteja dormente dentro de todo mundo até que sua carapaça seja quebrada dessa maneira —, e o momento é tão marcante (...).
Pág. 53

O libertino Richard Burton, cujas ações e excessos desencadeia todo o desenrolar da trama.

Shane, um escritor de contos que foi rejeitado diversas vezes. Ele percebe que seu sonho não o levaria a lugar algum e entra em profunda depressão. Falido, desempregado e divorciado, perdeu sua autoconfiança e tenta recuperar isso, porque mesmo sendo mimado por pais superprotetores, tenta dar um rumo na vida levando seus talentos a Hollywood apresentando a proposta para um filme. Otimista e impulsivo, sonhava em fazer coisas grandiosas e nunca duvidou do seu sucesso, mesmo que todos dissessem o contrário.

Pat, um músico de talento inato, que vive de excessos por conta da sua vida arruinada. Sua mãe, uma professora de italiano e teatro, sempre o livrava das enrascadas em que se metia.

Desta vez, se eu prometer nunca mais usar drogas-ficar bêbado-trair-roubar, posso voltar pra casa, por favor?
Pág. 188
Era tão raro conseguir enxergar o que havia sob a superfície tranquila e sarcástica de Pat que às vezes ela esquecia que havia ali um garoto magoado ainda capaz de sentir a falta do pai, mesmo que não se lembrasse dele.
Pág. 225

Vocês devem ter percebido que fui muito vaga a respeito da trama e não me estendi muito acerca dos personagens porque desejo que vocês sejam tão surpreendidos quanto eu fui durante a leitura!

A capa belíssima refletiu perfeitamente o enredo, narrado em terceira pessoa sob a perspectiva dos personagens mencionados acima.

Muitos poderão estranhar a narrativa lenta, mas rica e detalhista — achei tão soberbo que visualizei cada cenário —, já que no decorrer da leitura tudo vai se encaixando e você se vê profundamente envolvido para saber o destino dos personagens que são tão intensos quanto complexos e, ao mesmo tempo, irreverentes. Mesmo assim, não tem como não torcer por um final feliz. Sinceramente, quase abandonei a leitura faltando poucas páginas para o final porque a narrativa mudou e não via o desenrolar do que queria, mas prossegui em frente, o que foi bem gratificante.

Não tem como você não se identificar com algum deles, porque são tão imperfeitos como nós e isso os torna ainda mais humanos e fascinantes em meio às adversidades impostas pela vida repletas de medos, anseios e conflitos. Mas ainda cultivam a esperança se apegando aos sonhos mais improváveis.

Mas, outras vezes, honestamente, a ideia de estar em paz simplesmente a irrita. Em paz? Quem, a não ser os loucos, conseguem estar em paz? Que tipo de pessoa que desfrutou da vida poderia pensar que uma vida só é o suficiente? Quem poderia viver, mesmo que somente por um dia, e não sentir a doce dor do arrependimento?
Pág. 338

Além da sagacidade, a escrita do autor me cativou por seu lirismo emanado a cada página, além de trazer a nostalgia ao mencionar alguns dos meus filmes clássicos favoritos. Um romance arrebatador — ambientado em 1962 até os dias atuais — permeado de muito drama, humor e reviravoltas inusitadas onde nos pegamos questionando acerca das ironias da vida.

Gostei de ver os bastidores de Cleópatra que mostra o poder destrutivo do amor, com Liz Taylor e Richard Burton. Depois de concluída a leitura fui até pesquisar para saber se tudo isso era verídico mesmo ou apenas ficcional.

O livro traz belíssimas lições, mas revalida ainda mais o poder de nossas escolhas e do amor, principalmente de nossa fé, onde devemos acreditar em nós, ignorar o resto e fazer o que temos de fazer porque não devemos esperar que a vida comece se não levantarmos o traseiro do sofá, agirmos e irmos à luta.

Os sentimentos e as palavras são pequenos, claros e precisos. Humildes como sonhos.
Pág. 77
— Tudo que temos é a história que contamos. Tudo que fazemos, cada decisão que tomamos, nossa força, fraqueza, motivação, história e caráter, o que nós acreditamos, nada disso é real; tudo é parte da história que contamos. Mas aqui está o detalhe: essa é a nossa maldita história!
Pág. 288
Talvez todos os amores sejam algo sem esperança. (...): Nós queremos aquilo que queremos — nós amamos aqueles a quem amamos.
Pág. 319
Não há nada mais óbvio, mais tangível,
do que o presente. E, mesmo assim,
ele nos ilude completamente. Toda
a tristeza da vida se concentra nesse fato.
— Milan Kundera
Pág. 349


3 comentários:

  1. Já gostei!
    Pensando seriamente em pedir, será que devo?!

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    Respostas
    1. Pelo que te conheço, você iria gostar dos dramas, mas por outro lado não sei se curte narrativas lentas. Arrisque. Quem sabe não se surpreenda como eu? ;)

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  2. Essa sinopse me deixou curiosa desde o lançamento.
    Tenho interesse nessa trama.

    Bjo!

    http://meuhobbyliterario.blogspot.com.br/

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